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Medicalização Infantil

A Psiquiatria voltada para a infância é algo muito novo. Até então acreditava-se que a infância era um período de alegrias e descobertas onde tudo se encaixava. Há pouco tempo tem-se descoberto que crianças sofrem, tem depressão, ansiedade, etc. Devido a isso, são escassos os estudos e são poucas ainda as medicações próprias para as crianças. Muitas são adaptadas off label para elas.

Com essa sociedade maluca em que vivemos, onde muitos adultos já sofrem e enfrentam diversos transtornos psicológicos, imaginem as crianças, que enfrentam a mesma correria, a mesma competitividade, mas ainda não tem maturidade e vivência suficientes para compreender. Acabam desenvolvendo esses mesmos transtornos dos quais os adultos sofrem, cada vez mais cedo.

E, embora ainda haja um enorme preconceito relativo aos acompanhamentos psiquiátricos e psicológicos, muitas delas aparecem nos nossos consultórios. E, ao ouvirmos as queixas, precisamos estar muito atentos ao fato de que não são as crianças ou adolescentes quem procuram a ajuda (pelo menos na maioria dos casos). Normalmente quem faz a queixa são os pais, o professor, que sofrem dessa mesma rotina maluca, que também estão ansiosos e cuja tolerância, às vezes, é quase zero.

Por isso, a importância de se procurar um bom profissional e que seja especializado nessa etapa da vida: a infância e adolescência, que tem muitas particularidades que devem ser levadas em conta.

Muitas vezes, percebemos que a evolução da ciência e da tecnologia acabaram por relegar a um segundo (quem sabe terceiro) plano a subjetividade do paciente. As soluções acabam aparecendo em forma de comprimidos, antes que se escute o paciente e antes que se realize uma avaliação completa e, muitas vezes, interdisciplinar.

Com isso, as famílias não se esforçam muito para procurar as raízes da tristeza, do mal-estar, do desajuste e do comportamento inadequado. E, de acordo com a minha experiência, na grande maioria das vezes, esses comportamentos surgem devido às relações familiares conturbadas, de rotinas mal organizadas ou estressantes, da falta de diálogo, de poder dizer o que se pensa ou o que se sente.

Estamos, com isso, criando uma ova geração que cresce encorajada a depender de remédios psiquiátricos antes mesmo de tentar encontrar recursos interiores para se autoconhecer, não desenvolvem a resiliência.

O modelo que, atualmente, nossa sociedade impõe para nossas crianças e adolescentes é que todos precisam de uma pílula para ficar feliz. Deixam assim, de investir nas relações afetivas, no desenvolvimento das emoções.

Claro que não sou contra a medicação, mas somente após um processo diagnóstico cuidadoso e multidisciplinar e, se realmente for necessário. Muitas vezes, o problema que hoje é tratado com medicação, poderia ser tratado apenas com psicoterapia ou psicopedagogia, com mudanças nas atitudes familiares, com adaptações escolares.

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