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Educação Infantil e Alfabetização

Tenho percebido durante as avaliações de crianças no meu consultório com queixas escolares (principalmente no processo de alfabetização e aquisição de conceitos matemáticos), que elas apresentam defasagens anteriores, o que chamamos de pré-requisitos para a alfabetização.

Isso me faz hipotetizar que muitas instituições escolares e mesmo as famílias, estão enfatizando muito o desenvolvimento intelectual das crianças durante a Educação Infantil e se esquecendo de trabalhar aspectos extremamente importantes: recreação livre, psicomotricidade, musicalização, artes, atividades socializadoras, entre outros.

Voltando um pouquinho na história, sabemos que as creches e pré-escolas surgiram a partir de mudanças econômicas, políticas e sociais que levaram as mulheres ao mercado de trabalho, dando a elas um novo papel social e modificando a organização das famílias. Aquela mãe que estava presente aos cuidados com os filhos, ao brincar com eles, ao ensinar algumas coisas em casa, já não estava mais presente o tempo todo.

Ao mesmo tempo, a infância foi ganhando importância e estudiosos passaram a estuda-la, enxergando a possibilidade de, através da educação desde a mais tenra idade, torna-la produtiva e ajustada às novas exigências sociais.

Essa educação da criança pequena se dá de duas formas: cuidado e educação. As crianças nessa idade, ainda precisam de cuidados de outras pessoas sem os quais não consegue ainda sobreviver. Além disso, é nessa fase que a criança se percebe como um sujeito e a partir dessa percepção começa a perceber e experimentar o mundo à sua volta. E essa educação não é possível sem mediadores que a ajudem a desenvolver atividades adequadas.

Porém, o que tenho percebido no material de muitas dessas crianças (de diferentes escolas e com diferentes materiais pedagógicos), é que essa educação, desde o maternal está voltada para a escrita, para cobrir pequenas letras tracejadas, quantidades numéricas, etc. Com esse objetivo e prazo estipulado para terminar o caro material que os pais compraram, os educadores estão esquecendo de que essa é uma fase em que predominam o sonho, a fantasia, a afetividade, a brincadeira, as manifestações de caráter subjetivo.

A infância está sendo tratada como mais um simples momento de passagem, que precisa ser apressado, como tudo mais em nossos cotidianos adultos.

Como cobrir o tracejado da apostila se a criança ainda não desenvolveu a coordenação global, a coordenação motora fina e a visuo-motora, que trabalham a conscientização do corpo da criança, suas posturas e as sensações proprioceotivas, cinestésicas e labirínticas? É o desenvolvimento da coordenação motora que irá propiciar a dissociação de movimentos, ou seja, a capacidade de realizar múltiplos movimentos ao mesmo tempo, importantes para prestar a atenção na professora, realizar atividades da apostila e interagir com os amigos. É essa dissociação que permite a segmentação corporal para executar alguns gestos específicos necessários posteriormente para a aprendizagem da escrita. Sem o desenvolvimento da coordenação visuomotora, não será possível a criança manter sua visão em algo durante a execução de um movimento e, então, provavelmente, dirão que ela é muito distraída ou até agitada.

O trabalho com equilíbrio auxilia no desenvolvimento da coordenação motora global. Vocês, professores da educação infantil, lembram-se dos últimos exercícios para trabalhar equilíbrio que deram à sua turma?

Tenho pego, durante as avaliações, produções gráficas muito aquém da idade da criança. Seus desenhos são, muitas vezes, primitivos, desorganizados, com muitos elementos faltantes. E o desenho é precursor da escrita. E o esquema corporal é precursor do desenho. É a partir do trabalho com o esquema corporal que a criança tem a possibilidade de organizar a si mesma. E o próprio corpo é o ponto de partida para a descoberta de diversas possibilidades de ações, de interiorização das sensações, da interação social. Em raríssimas ocasiões ouvi relatos de escolas que trabalham profundamente, durante toda a educação infantil, com os sentidos (7 e não 5), com relaxamento, com brincadeiras de imitação. Lateralidade então, quantos adolescentes que chegam até mim, sem a noção de direita e esquerda!

Não vou aqui ficar falando de todos os pré-requisitos porque o espaço é curto. Minha intenção é incitar a reflexão acerca dos atuais materiais didáticos distribuídos por algumas editoras. Penso que, hoje, os conteúdos estão organizados a partir de uma distribuição artificial de disciplinas e acabam sendo trabalhados rapidamente e aos pedaços, produzindo, como resultado, uma criança fragmentada e que, certamente, apresentará as consequências disso futuramente no seu processo de educação formal. O processo maturacional delas não está sendo respeitado.

Será que em seu contato com o mundo as crianças pensam sobre elas apenas de um ponto de vista linguístico ou matemático?

A educação é o processo pelo qual nos tornamos quem somos, por isso, além da educação dada pelas famílias, o que é ensinado nos anos da Educação Infantil importa muito nesse processo!

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